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Nzinga Mbandi, Rainha de Angola
   
Autor/Fonte: a
Publicado: g25-02-2010 Multimedia
       
Nzinga Mbandi, Rainha de Angola

Rainha Nginga Mbandi Ngola
 

 

Por: LEO SALVADOR / ARTURO ARNAU (Revista Audácia, Missionários Combonianos de Portugal)

 

Nzinga Mbandi Ngola, rainha de Matamba e Angola nos séculos xvi e xvii, é uma das heroínas africanas de quem a História guarda o nome, por causa do bem que fez pelo seu reino. As crónicas registam o seu nome de diferentes formas: Nzinga, Singa, Nsinga, Ginza e Ana de Sousa, por baptismo. Mas um só foi o seu ideal: garantir a liberdade ao seu povo. 

 

Os olhos da princesa Nzinga Mbandi empapam-se de lágrimas. Não suporta o que vê. É uma cena demasiado atroz para uma menina de apenas dez anos.

Solta-se das mãos da sua irmã. Corre em direcção do grupo de homens e mulheres, presos com cadeias, seminus, que estão a ponto de embarcar numa caravela portuguesa. Há dor e desespero nos rostos deles. Nzinga não percebe o que está a acontecer. Mas não lhe apraz. Volta, assustada, para junto da irmã, e chora.

 – São escravos – explica-lhe esta. – Levam-nos à força, para os obrigarem a trabalhar numa terra longínqua e estranha.

 

Tudo começa em 1482, quando os navegadores portugueses aportam na costa de Angola e, em seguida, conquistam muitos reinos. E eles estabelecem em Luanda um entreposto para o comércio de escravos. Foi Paulo Dias de Novais, neto do navegador Bartolomeu Dias, quem fundou a cidade fortificada de São Paulo de Assunção de Luanda, em 1578. Nos inícios do século xvii, partia dali uma média de 10 000 escravos por ano. O tráfico enriquecia muita gente. Os escravos iam para o Brasil.

 

A princesa Nzinga nasce em 1582. Tem duas irmãs e dois irmãos. Seu pai é Ngola Quiluanji, rei dos Mbundus, no território Ndongo (Angola) e Matamba (perto do Congo). Ele não inviabiliza o comércio de escravos, mas, em contrapartida, exige aos Portugueses que não façam baptismos em massa, como praticaram no vizinho reino do Congo. Astuto, o monarca aproveita para se livrar de prisioneiros de guerra e de outros delinquentes. Todavia, dura pouco esta conivência, pois Portugal não assegura as contrapartidas.

 

Morto o pai, sucede-lhe o filho mais velho, Ngola Mbandi. Sedento de poder, mata o irmão e o sobrinho mais velho, filho de Nzinga. Esta afasta-se do irmão, que odeia, e vai com o marido e as irmãs para a região montanhosa da Matamba. Mais tarde, esta servirá de fortaleza contra os ataques dos Portugueses. Entretanto, ela revolta-se contra o irmão e decide tomar as rédeas do poder.

 

Em 1624, é aclamada como rainha pelo povo. A nova monarca tem dois objectivos: recuperar a independência política e territorial e expulsar os Portugueses do seu reino.

Não encontra facilidades. Os Portugueses não cedem e, um ano depois de subir ao trono, retiram-lhe a realeza e devolvem o trono ao irmão dela, que é muito mais dócil de tratar.

 

Nzinga não se dá por vencida. Funda o reino de Matamba. Graças à sua diplomacia e persuasão, consegue uma grande aliança entre todos os inimigos de Portugal, incluindo os Holandeses. Reúne um exército de 50 000 homens e mulheres. Os melhores soldados são escravos negros que conseguiram fugir dos donos portugueses. Ela própria conduz as tropas. Usa um machado à cintura e maneja sem dificuldade o arco e a flecha. E, para ser respeitada, veste-se de homem e exibe peles de animais como os reis.

A táctica militar da monarca é a guerrilha, que vai debilitando o inimigo. Os seus soldados estão em constante movimento e atacam quando e onde menos se espera.

 

Este poderoso exército derrota os Portugueses em 1629 e, durante quatro anos, soma vitórias importantes. Também ataca e vence outros soberanos africanos e alarga o domínio territorial. Conta com a ajuda dos Holandeses. Mas, em 1648, dá-se a batalha final. Portugal derrota Nzinga e as tropas holandesas e reconquista Luanda.

 

Oito anos depois, a rainha assina um tratado de paz, e diz: «Não quero mais guerras nem novas conquistas. Quero estabelecer-me no meu reino e fundar nele cidades e aldeias, nas quais todos vivam adequadamente. Tratemos de salvar muitas almas.»

 

Nzinga vê-se obrigada a ceder em alguns aspectos. Reconverte-se ao Cristianismo. Pois baptizara-se com 40 anos, mas renegara à fé mais tarde. Também consegue a libertação da sua irmã Cambu, que esteve presa oito anos, mas tem de entregar, em troca, 130 escravos.

 

A rainha morre a 17 de Dezembro de 1663. Tem 82 anos. E o seu reino é independente de Portugal. Sucede-lhe no trono Cambu, que continua a gesta dela.

 

 

 

 

 

Mulher de grande carácter

 

Nzinga Mbandi Ngola, angolana, foi uma líder militar de relevo, que enfrentou os europeus traficantes de escravos. Lutou por mais de trinta anos. O seu porte impunha respeito, pois possuía uma postura masculina, mas também espalhava elegância feminina. Ela usou os dois atributos conforme a situação o exigia. Também se serviu da religião como ferramenta para alianças e acordos políticos.

A sua vida inspirou outros africanos: Efunroye Tinubu (1807-1885), da Nigéria; Nandi (1760-1827), mãe de Shaka Zulu, grande guerreiro sul-africano; Kaipkire, líder dos Hereros, povo da Namíbia, no século xviii; e o exército feminino que seguiu Behanzin Bowelle, o rei do Daomé, no actual Benim, a partir de 1841.

                                                                                                                

 

 

 
 
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